Seis empresários, seis temas e as decisões que 100 participantes levaram para as suas empresas.
Cada capítulo resume uma apresentação, explica as ideias principais com esquemas e fecha com a parede de post-its desse tema: as acções e decisões que os participantes escreveram à mão durante o dia.
Blinding flash of the obvious: o momento “porque é que não fiz isto antes?”
O que vou mesmo fazer, com data marcada.

A melhor maneira de incomodar uma pessoa é dar-lhe desculpas.António Ribeiro · ActionCOACH Porto, na abertura do dia
António Ribeiro abriu o dia com uma ideia: isto não é uma conferência, é um encontro entre pares. Todos na sala têm empresas e pessoas a depender de si, e é isso que torna fácil partilhar ideias concretas. O foco são as empresas presentes.
Dos 11 milhões de portugueses, só 400 mil têm uma empresa com mais de um empregado. É um grupo que empreende, concretiza e também sofre.
Ter muitas micro e pequenas empresas não é o problema: a estrutura é igual em todo o mundo. A diferença está na escala. Uma microempresa nos EUA pode faturar 1 a 2 milhões.
Quando o carro não pega, a vítima queixa-se da bateria e telefona a lamentar-se. O herói chama um Uber ou apanha o autocarro, mas chega.
A própria organização aplicou a regra: sem queixas sobre a sala ou o almoço. Se algo não está bem, resolve-se.
Espera-se de cada participante um blinding flash of the obvious: o momento de “porque é que deixei de fazer isto?”. A ideia passa da cabeça para o papel e depois para uma decisão.
Ninguém gosta de falhar. O segredo é falhar barato. Como o mundo muda cada vez mais depressa, o tempo de experimentação é mais curto: experimentar mais, testar e medir.

Cada venda depende de uma cadeia de ligações entre equipas: se uma falha, a venda falha. A Redicom (Santo Tirso, 2002, 45 pessoas, mais de 500 projectos) usa o e-commerce como espelho de qualquer organização.
Num negócio pequeno, a mesma pessoa faz tudo. Ao escalar, cada etapa passa para uma equipa diferente. Sem ligação e comunicação entre elas, em algum momento há falha.
Produto, preço, stock e clientes centralizados alimentam todos os canais, sem integrações diferentes para manter. Os projectos fazem-se por etapas: loja online, B2B, marketplaces, lojas físicas.
O portal B2B funciona como o home banking do cliente profissional, e tende a ser o canal mais rentável porque não exige comprar tráfego.
Se uma peça fica cativa para uma encomenda online e a loja não ganha nada, aparecem as desculpas. As equipas têm de ser envolvidas e beneficiadas.
Antes: as encomendas saíam do armazém e de três lojas grandes. As lojas não tinham tempo, o sistema reembolsou automaticamente e perderam-se mais de 100 mil euros.
Depois: as encomendas vão a “leilão” entre lojas. Quem ganha prepara-a e recebe comissão. Tudo é despachado logo e a carga fica distribuída.
Todas as métricas têm lógica; o problema é não haver uma definição comum. Vender mais obriga a fazer contas: descontos, tráfego pago, comissões, pagamentos e devoluções comem a receita.
Quando a entrega falha, contactar o cliente, explicar e dar algo mais, como 30% a 40% de desconto na próxima compra.
O Redicom Auto Pilot conhece o negócio e prepara o trabalho; a empresa decide. Cada departamento acede só ao que está autorizado e as alterações ficam em histórico.
Quem organizouConhece a ActionCOACH PortoCoaching de negócio para empresários, em actioncoachporto.pt↗
O que os participantes decidiram fazer depois desta sessão.


Faturar não é ganhar. A Microcrete, pioneira do microcimento em Portugal, mostrou como escolher o cliente certo e vender com mais margem.
Numa feira em Londres, Sérgio explicava como vendia mais um balde. O cliente estava a pensar em contentores. O balde são as crenças que nos impedem de ir mais longe.
Casa cheia e telefone a tocar não chegam se a conta bancária não reflecte o esforço. Marketing sério não são danças no TikTok nem promoções permanentes: traz vendas e margem ao mesmo tempo.
A fábrica do avô de Sérgio fechou por medo de deixar os filhos experimentar. Empresas dependentes de um grande cliente caem quando as encomendas param. É quando estamos bem que temos de procurar o próximo cliente.
1. Quais são os meus três maiores clientes e quanto pesam na faturação?
2. Se o maior desaparecesse amanhã, quem conquistava a seguir?
3. Que clientes devo despedir?
Quando somos para todos, ninguém se sente servido. O erro mais comum é comunicar igual para todos os decisores.
Para chegar ao arquitecto da obra, a Microcrete lançou um podcast que chegou aos 100 episódios. Um convidado fez a ponte; uma fotografia num almoço fechou o negócio: mais de 2 000 m² de microcimento.
Tape o logótipo e o nome no seu site. Se a concorrência pudesse dizer o mesmo, a promessa não diferencia. Uma fórmula que funciona:
“Ajudamos [perfil de cliente] a alcançar [resultado] através de [solução].”
A parede com mais post-its até essa altura do dia.

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A IA não vale nada sem a experiência de quem a usa, e essa é a vantagem dos empresários. A Kelux.ai, estúdio de IA do Grupo Átila, foi montada em três meses e já tem mais de 20 pessoas.
Os mais jovens constroem depressa; os mais experientes sabem o que querem. A IA precisa dos dois. Um jovem da equipa construiu em dois meses agentes que marcam reuniões porque sabia exactamente o que queria.
Começou do zero duas vezes. No Euro 2016 levou sozinho uma bandeira com 200 mil fotografias de adeptos até França, pendurada numa grua.
A sanita conheceu mais gente. (sim, uma sanita!)
“Eu também não digo que uso internet.” A IA já é uma coisa vulgar. Qualquer empresa consegue construir o software à medida de que precisa, em vez de pagar licenças por coisas que não usa. O que passa a importar é o serviço.
Ricardo desaconselhou um cliente a investir em publicidade e, em vez disso, automatizou a gestão de leads. Esse cliente é hoje o melhor amigo da Kelux. Noutro caso, agentes de IA triplicaram as vendas.
A IA é uma ferramenta vulgar. A vantagem é a experiência.
Simbiose entre os mais velhos e os mais novos.
A IA liberta tempo a quem gosta de pensar.
Construir à medida em vez de pagar licenças.
Começar do zero não é falhar.
Pensa como uma criança. Sê simples. Faz tudo hoje.
Estes são os post-its que ficaram na sala. A palavra mais repetida foi “hoje”. Qual é a tua acção? Escreve-a e cola-a no quadro.
Este quadro é dinâmico. Podes juntar o teu post-it quando quiseres. O mundo hoje muda ao dia, e a IA dá-nos essa capacidade: mudar ao dia também.


Cuidar das pessoas aparece nas contas. A Cachapuz, empresa de pesagem de Braga com raízes em 1694, foi a primeira empresa privada certificada pela NP 4590 (bem-estar e felicidade organizacional).
Inspirada no autor Luis Huete, Graça vê as empresas como seres vivos. Precisam de quatro “vitaminas”, ou seja, de pessoas diferentes, cada uma no lugar certo.
As “vacinas” são a imunidade: estrutura forte, governação, conversas estratégicas, cultura, causa e consequência, combate aos silos e boas lideranças intermédias.
Maturidade não é idade: a última contratação tinha 56 anos. Os mais novos esperam feedback a cada três meses. Sem “eu acho” nem “eu sinto”: comportamentos concretos, e o líder assume sempre a sua parte.
Não é obrigação da empresa pôr as pessoas felizes. É sua obrigação criar as condições. A NP 4590 torna o tema objectivo: metas, indicadores e acções medidas.
A Cachapuz faz um diagnóstico de 42 perguntas, tem uma Chief Wellness Officer e um onboarding igual para todos, que termina sempre com a CEO.
“É muito bonito falar de pessoas, mas tem de se traduzir em algo concreto.” Depois de um salário justo, conta mais a forma como as pessoas são tratadas. Um candidato disse: “Eu só quero trabalhar com a doutora.”
A palavra mais repetida foi “ouvir”.


Uma fábrica de conservas em dificuldades tornou-se uma rede de 21 lojas em Portugal e uma em Times Square, a vender a mesma sardinha a oito vezes o preço do supermercado. O caso d’O Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa.
As conservas portuguesas perderam para Marrocos e Tailândia. Vendidas a granel, “o milagre terminava no porão de um camião”. Um país pequeno não tem massa crítica para concorrer pelo preço: a saída é o nicho e o valor acrescentado.
Subir a escada é transformar o mesmo produto. Ao lado da lagosta está o caranguejo real: “ah, esta é muito cara”, e leva-se a lagosta. É o efeito âncora.
O ticket médio passou de 12,96 € em 2016 para 33,45 € em 2025 (+158%).
Para ter a esquina do Rossio foi preciso comprar o prédio inteiro. Mais as latas litografadas e as obras: cerca de 5 milhões de euros, sem saber se se venderia uma lata. A rede de segurança era vender o prédio.
Supermercados e lojas gourmet não respeitavam o conceito nem o preço. A resposta foi uma rede própria.
Cada pastel de bacalhau leva queijo Serra da Estrela certificado. Com outro queijo poupavam 2 milhões por ano, mas a história deixava de ser verdadeira.
Pagam 2 € por litro de leite, quando o habitual era 1,20–1,30 €. Hoje há jovens a entrar no sector.
Com o ambiente certo, a venda é consequência. Cor, luz, música, um trono para a fotografia e a lata do ano de nascimento por 9 €. Entrada livre, porta aberta, saída sempre visível, sem degraus.
A equipa ganha salário mais comissão, acompanhada em tempo real numa app. Todos visitam a fábrica e saem a dizer: “afinal isto não é caro”.
Uma sala tocada pela coragem do caso.


Primeira da família a entrar na faculdade, CFO da Microsoft Portugal aos 38 e reformada por opção aos 44, quando o rendimento dos seus activos passou a cobrir as despesas.
Aos 26 anos, na Microsoft, perguntou à directora financeira que competências precisava para ser CFO. Recebeu uma lista de 20. Cada função seguinte, de Seattle a Madrid, serviu para as construir.
Em 2006 o pai morreu aos 54 anos. Nesse dia decidiu não trabalhar depois dos 50, para não adiar a vida para depois da reforma.
Poupar não é não gastar. Uma camisola de 50 € a 40 € nos saldos não poupou 10 €. Poupar é viver abaixo das possibilidades e ter primeiro um fundo de emergência de seis meses de despesas.
Numa sala de empresários, só sete ou oito sabiam quanto tinham gasto em alimentação no mês anterior.
O melhor investimento é em nós próprios, em conhecimento. E só se investe no que se entende, nunca porque alguém num carro de luxo diz que comprou criptomoedas.
Segundo o Ageing Report 2024 da UE citado por Rita, a primeira pensão em 2050 rondará 39% do último salário. “Agora dá para tudo. Mas vai dar no futuro?”
A parede mais pessoal do dia: dinheiro, tempo e cuidado consigo próprio.

No fim do dia, cada participante escolheu uma só ideia. Estas foram as que ficaram na parede.

Se foi possível,
é replicável.
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